index·comunicación | nº 10(2) 2020 | Páginas 169-196

E-ISSN: 2174-1859 | ISSN: 2444-3239 | Depósito Legal: M-19965-2015

Recibido el 16_12_2019 | Aceptado el 6_03_2020 | Publicado el 20_06_2020

 

 

CONSERVADORISMO COMO DIRETRIZ: O QUE O CONTEÚDO E O LÉXICO DO ENCARTE «NOSSAS CONVICÇÕES» DIZEM SOBRE O JORNAL ‘GAZETA DO POVO’

 

CONSERVADURISMO COMO GUÍA EDITORIAL: QUÉ DICEN EL CONTENIDO Y EL LÉXICO DEL ENCARTE “NOSSAS CONVICÇÕES” SOBRE EL PERIÓDICO ‘GAZETA DO POVO’

 

CONSERVATISM AS A GUIDELINE: WHAT THE CONTENT AND LEXICON OF THE BOOKLET «OUR CONVICTIONS» SAY ABOUT THE NEWSPAPER ‘GAZETA DO POVO’

 

 

Luciane Leopoldo Belin

Universidade Federal do Paraná (Brasil)

lucianebelin@gmail.com

orcid.org/0000-0003-2909-7638

 

 

 

copyPara citar este trabajo: Belin, L.L. (2020). Conservadorismo como diretriz: o que o conteúdo e o léxico do encarte «Nossas Convicções» dizem sobre o jornal Gazeta do Povo. index.comunicación, 10(2), 169-196.

 


 

Resumo: O encarte «Nossas Convicções», da Gazeta do Povo, lançado em 2017, marcou a entrada do jornal brasileiro em uma nova fase e apresentou oficialmente seu posicionamento frente a diversos assuntos de cunho social, moral, religioso e político. A partir de uma discussão teórica sobre o pensamento conservador, pautada principalmente no conceito de Karl Mannheim, e suas aplicações na realidade atual brasileira, passando ainda por uma breve discussão sobre as transformações do jornalismo na era digital, este artigo utiliza uma metodologia dividida em duas partes —a análise de conteúdo combinada à análise léxica— para compreender quais são as características do pensamento conservador contemporâneo presentes no material em questão. A presença de um discurso crítico aos posicionamentos de movimentos progressistas como o feminista e LGBTI+, a recorrência de argumentos contra o direito ao aborto e a defesa da manutenção do conceito da família tradicional são alguns dos resultados encontrados na análise, que identificou ainda a presença de uma preocupação com aspectos ligados ao empreendedorismo. No texto analisado, a família aparece como elemento central e a religião, aspecto recorrente dentro do conteúdo considerado, é associada ao Estado muito mais do que os direitos e a autonomia da mulher.

 

Palavras-chave: pensamento conservador; conservadorismo brasileiro; jornalismo; análise léxica; análise de conteúdo.

 

 

Resumen: El folleto «Nossas convicções» del periódico brasileño Gazeta do Povo, en 2017, marcó el lanzamiento de una nueva fase y presentó oficialmente su posición sobre diversos temas sociales, morales, religiosos y políticos. A partir de una discusión teórica sobre el pensamiento conservador basada principalmente en el concepto de Karl Mannheim y sus aplicaciones en la realidad brasileña actual, así como una breve discusión sobre las transformaciones del periodismo en la era digital, este artículo utiliza una metodología dividida en dos partes —análisis de contenido combinado con análisis léxico— para comprender cuáles son las características del pensamiento conservador contemporáneo presente en el material en cuestión. La presencia de un discurso crítico sobre las posiciones de los movimientos progresistas como el feminista y LGBTI+, la recurrencia de argumentos contra el derecho al aborto y la defensa de mantener el concepto de familia tradicional son algunos de los resultados encontrados en el análisis, que también identificó la presencia de preocupación por aspectos relacionados con el emprendimiento. En el texto analizado, la familia aparece como un elemento central y la religión, aspecto recurrente dentro del contenido considerado, está asociado con el Estado mucho más que los derechos y la autonomía de las mujeres.

 

Palabras clave: pensamiento conservador; conservadorismo brasileño; periodismo; análisis léxico; análisis de contenido.

 

 

Abstract: This article analyses 28 articles of a manifesto that launched a new phase for the Brazilian newspaper Gazeta do Povo, and officially presented its political opinion on various social, moral, religious and political issues. Mannheim's concept and its applications in the current Brazilian reality, as well as a brief discussion about the transformations of journalism in the digital age, this article uses a methodology divided in two parts —content analysis combined with lexical analysis— to understand what are the characteristics of contemporary conservative thinking present in the material in question. The presence of a critical discourse to the positions of progressive movements such as feminist and LGBTI+, the recurrence of arguments against the right to abortion and the defense of maintaining the concept of the traditional family are some of the results found in the analysis, which also identified the presence of a concern with aspects related to entrepreneurship. In the analyzed content, the idea of «family» appears as a central element and religion, recurrent aspect within the considered content, is associated with the State much more than the rights and autonomy of women.

 

Keywords: conservative thinking; brazilian conservatism; journalism; content analysis; lexical analysis.

 


Introdução

Um dos principais veículos de comunicação do estado do Paraná e um dos maiores do Brasil em termos de alcance de público [1], a Gazeta do Povo completou 100 anos em 2019. Em 2017, o jornal, que circulava diariamente como mídia impressa no estado do Paraná e utilizava seu site majoritariamente para replicar o conteúdo em papel, anunciou uma migração para as plataformas digitais. Passou, então, a figurar predominantemente online, com apenas uma edição semanal impressa aos domingos.

Junto a essa mudança de distribuição, a Gazeta do Povo também optou por expor oficialmente seu posicionamento político e divulgar os princípios e ideologias que norteiam as atividades do veículo de informação. Assim, quando circulou a primeira edição impressa nesse novo formato semanal, em 4 de junho de 2017, os assinantes receberam juntamente a ela um encarte intitulado «Nossas Convicções» [2].

Formado por um conjunto de 28 textos, o material informa ao leitor sobre as opiniões editoriais do jornal com relação a assuntos como laicidade do Estado, religião, aborto, liberdade e papel social da mulher, casamento, diversidade e liberdade de expressão.

A linha de pensamento do encarte chamou a atenção do público de maneira geral e da comunidade jornalística e acadêmica por seu tom majoritariamente conservador e tradicionalista, justamente quando a mesma empresa de comunicação anuncia uma modernização técnica e de distribuição.

Este artigo propõe observar os 28 textos em questão para responder à pergunta: Quais são as características do pensamento conservador contemporâneo que estão presentes no encarte «Nossas Convicções», da Gazeta do Povo? Secundariamente, observa-se também de que forma os termos utilizados no material se inter-relacionam em torno dos indicativos do conservadorismo no jornal.

Num primeiro momento, discute-se o conceito de pensamento conservador a partir da obra de Mannheim (1986), que descreve elementos essenciais para reconhecer o conservadorismo em uma sociedade, em diálogo com questões que atualizam o mesmo conceito e o situam mais especificamente no contexto sociocultural e político do Brasil.

O segundo tópico se dedica a contextualizar o momento atual da Gazeta do Povo —em que as lógicas de produção e apresentação do conteúdo se tornam cada vez mais digitais—, bem como a resgatar brevemente a estrutura e história do jornal, do encarte «Nossas Convicções» e dos artigos que compõem o corpus de análise. Em seguida, descrevem-se os procedimentos metodológicos utilizados.

O quarto e último tópico é dividido em duas partes voltadas às análises de conteúdo e léxica que foram empreendidas sobre o encarte em questão. Os elementos que historicamente caracterizam o conservadorismo foram, aqui, adaptados para compor as variáveis da pesquisa.

Os resultados evidenciam que todos os elementos indicativos propostos por Mannheim estão presentes no conteúdo analisado. Percebeu-se, ainda, que é possível encontrar cinco diferentes classes de palavras nos 28 textos observados e, a partir da análise léxica, identifica-se que a Gazeta do Povo calca seu discurso editorial em questões que colocam o indivíduo e a família mais próximos dos assuntos de interesse público e estatal, enquanto os aspectos voltados à racionalidade do homem e à dignidade humana se entrecruzam com frequência. O aspecto que mais aparece, no entanto, é a classe de palavras disposta em torno da religião, que faz divisa com os argumentos sobre as responsabilidades e atribuições do Estado.

1.    O pensamento conservador e a realidade brasileira

Ao apresentar o conceito de estilos de pensamento, Karl Mannheim sugere que cada tipo de conhecimento é marcado por determinados contextos e pe­río­dos históricos e que esses podem ajudar a compreender onde e quando se situa um discurso. Contudo, mais do que compartilhar de características em comum, elementos que compõem um mesmo estilo de pensamento também possuem o que o autor chama de «intenções básicas», surgidas do processo de construção pessoal e histórica de seus principais portadores.

É com base nesses aspectos que o autor analisa o conservadorismo alemão do século XIX, compreendendo que «esta escolha, antes de tudo, nos apresenta uma tarefa limitada, na medida em que ela focaliza a análise sobre um período, um país e um grupo social» (Mannheim, 1986: 83). Contrapondo-o à tradição conservadora existente na França e na Inglaterra no mesmo período, Mannheim lista os fatores que tonificaram essa maneira de pensar e que impediram que ideias liberais se consolidassem no país naquelas circunstâncias.

Enquanto que, em determinados momentos, a religião pode ser indicada como «agente cristalizador» de um estilo de pensamento, no momento ao qual o autor se refere, é em torno da política que ele passa a ser fortificado.

As diferenças sociais se refletem não somente em diferentes correntes de pensamento, mas, também, na diferenciação, num plano mais geral, do clima mental de uma época. Não apenas o pensamento, mas mesmo a maneira de experimentar emocionalmente as coisas, varia com a posição das pessoas na sociedade (Mannheim, 1986: 91).

Assim, o conservadorismo moderno citado pelo autor é fruto de circunstâncias muito específicas e pode ser considerado como uma forma para além do tradicionalismo, no sentido de que este se trata de um olhar individual e pessoal de encarar o mundo, enquanto o conservadorismo se consolida na esfera pública.

O tradicionalismo é essencialmente uma dessas inclinações ocultas que cada indivíduo inconscientemente abriga dentro de si mesmo. O conservadorismo, por outro lado, é consciente e reflexivo desde o princípio, na medida em que surge como um contra-movimento, em oposição consciente ao movimento progressista altamente organizado, coerente e sistemático (Mannheim, 1986: 107).

Assim, o autor sugere que apenas em um contexto histórico, social e político marcado pela emergência de ideias liberais e/ou revolucionárias, o conservadorismo encontraria abertura para emergir coletivamente e extrapolar as barreiras individuais do tradicionalismo de maneira reacionária. Isso ocorre uma vez que seus defensores se deparam, nessas condições, com a necessidade de manter vivos e fazer prevalecer seus pensamentos outrora predominantes, mas que podem estar em fase de questionamento por parte da sociedade.

Embora o autor se refira a um contexto específico datado de mais de um século atrás, este artigo tem como hipótese que os elementos que Mannheim (1986: 109) diz terem propiciado o surgimento do conservadorismo alemão também podem ser encontrados em uma análise —ainda que superficial— do contexto sociopolítico e cultural brasileiro do século XXI, expostos em conteúdo midiáticos, como é o caso do encarte «Nossas Convicções», aqui analisado.

O primeiro destes fatores é a vivência de uma sociedade em transformação, ou o que ele chama de «um processo dinâmico de mudança orientada», que inicia com atitudes e comportamentos individuais, mas ganha espaço nas discussões públicas paulatinamente.

Com um debate crescente em torno de causas sociais, minorias e grupos marginalizados, o Brasil vive uma fase marcada pela fortificação do movimento LGBTI+ [Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais e demais legendas], pela intensificação da atuação de diversas vertentes do movimento feminista, pelo crescimento da presença de pessoas negras nas universidades [3] e no mercado de trabalho.

Esses e outros movimentos progressistas vêm, nos últimos anos, recebendo visibilidade nos meios de comunicação convencionais, como televisão, rádio e jornais, e nos ambientes online gerados pela consolidação da internet enquanto meio de comunicação global, que vão desde os espaços autônomos das redes sociais online individuais até os sites de jornalismo nativos digitais, que são reconhecidamente propagadores de conteúdos e pautas que nem sempre encontram espaço nas mídias mais consolidadas.

O segundo critério mencionado pelo autor sugere que esse processo de mudança deve estar ligado à «diferenciação social» (Mannhein, 1986: 109), no sentido da formação de uma sociedade de classes. De acordo com índice divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) [4] em março de 2017, o Brasil é o 10º país mais desigual do mundo, com um coeficiente de desigualdade de 37%, índice superior ao restante da América Latina e Caribe, que é de 34,9%.

O terceiro critério diz que as ideias que marcam uma época são intrinsecamente relacionadas a tais aspectos —as mudanças e a realidade desigual—, ainda que o pensamento não seja puramente extraído delas. Nas palavras do autor, «quaisquer que sejam as misturas e sínteses que possam ser produzidas devem corresponder às linhas mais amplas dessa diferenciação social» (Mannhein, 1987: 109). É também o caso de movimentos estratificados —ou da própria divisão interna que marca o que se chama atualmente de uma esquerda política brasileira, que vem cada vez mais sendo tangenciada e relacionada a movimentos como os citados acima, de forma que, mesmo pautas de interesse global, como a igualdade de gênero e a preocupação com o meio ambiente, sejam cada vez mais interpretadas pelo senso comum em associação aos partidos e movimentos progressistas e de esquerda.

Por fim, a institucionalização de todas essas questões individuais e/ou minoritárias por meio da chegada de representantes desses movimentos aos cargos públicos e ocupação de vagas no parlamento pelos mesmos é o critério final que, segundo Mannheim, leva ao desenvolvimento ou à intensificação do conservadorismo de maneira organizada. «Em poucas palavras o tradicionalismo só pode se tornar conservadorismo numa sociedade na qual a mudança ocorre através do conflito de classes —numa sociedade de classes—. Esse é o ambiente sociológico do conservadorismo moderno» (Mannheim, 1986: 110).

Embora o autor estivesse preocupado em observar uma sociedade do começo do século XIX, algumas semelhanças com o contexto atual brasileiro são inegáveis, mas é preciso levar em consideração também algumas particularidades da história e da formação sociocultural brasileira para compreender que forma assume o conservadorismo no país no contexto atual, marcado por novas tecnologias e novas relações sociais pautadas nas redes sociais online.

1.1.   O contexto nacional

Se, no século passado, o conservadorismo nasceu como reação às tendências modernizadoras, a versão atual também demonstra ser uma resposta a uma série de transformações sociais, econômicas e culturais que interferem diretamente na estrutura que o país mantém desde a colonização portuguesa.

No começo dos anos 2000, a queda na desigualdade social, o alcance de classes populares a privilégios antes inatingíveis, a facilitação do acesso às universidades para grupos raciais e sociais historicamente desprivilegiados, por meio das cotas sociais e raciais, e a obtenção de direitos e conquistas políticas das mulheres, por meio do feminismo, e dos grupos LGBTI+, são apenas alguns exemplos de mudanças que despertaram reações dos nichos mais tradicionalistas.

Como visto no tópico anterior, essas ações progressistas compõem um cenário propício para o desenvolvimento do pensamento conservador.

No Brasil, [o conservadorismo] congrega propriedades europeias e norte-americanas. Sofre também mutações desde dentro, recombinando, ecleticamente, propostas, valores e ideais com a nossa realidade concreta, desde finais do século XIX. O resultado —considerando as condições de inserção subordinada de nossa formação social no circuito de capital mundial monopolizado, além das contradições tipicamente decorrentes da passagem brasileira à modernização capitalista— é a intensificação das tonalidades mais à direita do conservadorismo, aproximando-o de ideias ao sabor dos reacionários (Souza, 2015: 8).

Embora defenda que o contexto é favorável ao crescimento da onda conservadora, Souza (2015) reforça que não se pode tratar o conservadorismo moderno como sinônimo de uma reação inerente à extrema direita, uma vez que se trata de movimentos autônomos, mas que podem atuar tangencialmente. Na visão do autor, frente aos reacionários mais radicais, um conservador poderia se passar por progressista.

Souza (2015) sugere que, em sua versão contemporânea, em oposição ao formato clássico, o conservadorismo assume algumas características distintas, a saber: nem sempre há uma filiação teórica explícita; os conservadores modernos não são tão nostálgicos, mas valorizam os privilégios correntes; são mais pragmáticos e empíricos; e não são necessariamente resistentes a qualquer tipo de mudanças —apenas aquelas que questionam seus monopólios.

Para Löwy (2015), as tendências ao conservadorismo e sua aproximação com a extrema-direita, que aparecem tanto na Europa quanto na América Latina, são algo que não se via desde a década de 1930, mas que se manifesta de maneiras diferentes em cada continente. Se, em países como a França, essa extrema-direita se expressa na xenofobia, na América do Sul, encontra outros caminhos ligados às formações socioculturais dos países pós-colonização e escravidão.

Segundo o autor, os moldes contemporâneos do conservadorismo dificilmente tomariam formas abertamente fascistas ou nazistas, assumindo diferentes níveis de radicalismo. Também não são homogêneas.

A orientação reacionária nacionalista, na maioria das vezes, é «complementada» com uma retórica «social», em apoio às pessoas simples e à classe trabalhadora (branca) nacional. Em outras questões —por exemplo, neoliberalismo, democracia parlamentar, antissemitismo, homofobia, misoginia ou secularismo— esses movimentos são mais divididos (Löwy, 2015: 654).

Ao comparar as manifestações do conservadorismo no atual contexto social e político brasileiro com o da França, Löwy (Idem) sugere que é possível traçar paralelos entre ambos com base em principalmente dois aspectos: o culto à violência e à repressão e a intolerância às minorias sexuais.

Almeida (2017; 2019) sugere que o Brasil vive uma «onda conservadora», articulada em torno de quatro aspectos: «economicamente liberal, moralmente reguladora, securitariamente punitiva e socialmente intolerante» (Almeida, 2019: 185). Ao desenvolver uma análise da conjuntura política brasileira da última década, o autor resgata alguns aspectos que, de certa forma, justificam a eleição do presidente Jair Bolsonaro (PSL), atrelando parte do sucesso eleitoral do ex-deputado à persona de «outsider» do jogo político construída pelo então candidato —apesar de sua carreira de quase três décadas no legislativo—, ao discurso calcado no combate à corrupção, mas principalmente à proximidade com os ideais religiosos.

O Brasil, principalmente com a redemocratização, experimentou mudanças consideradas progressistas em termos de direitos reprodutivos e sexuais. Em contraposição, recrudesceu a reação para conter a secularização, de um lado, e os comportamentos e os valores mais liberais, de outro. Esse contexto tem resultado na disputa pela moralidade pública, que encontrou nas religiões cristãs os principais promotores da sacralização da família e da reprodução da vida (Almeida, 2019: 208).

Essa supervalorização da moralidade se dá em um contexto no qual o Brasil vê seu mapa religioso se redesenhando. Segundo o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 86% da população brasileira é formada por cristãos. Embora os católicos estejam perdendo espaço para os evangélicos o percentual de evangélicos passou de 6,6% a 22,2% entre 1980 e 2010—, esses ainda são maioria, com 64,6% da população religiosa [5].

Tal crescimento se traduz em participação social, na mídia e na política. Cunha (2018: 148) chama atenção para três aspectos relacionados ao crescimento da atuação dos grupos evangélicos: «a reconfiguração do lugar dos evangélicos na política; a emergência do neoconservadorismo evangélico; as transformações na relação mídia-religião». Essas questões são apontadas pelos autores como reacionárias às políticas de direitos humanos, igualdade social, racial e gênero que desafiam alguns ideais religiosos como a heteronormatividade, por exemplo.

Nesse contexto, a imprensa é vista por parte da literatura como uma ferramenta de manutenção das hegemonias políticas, econômicas e sociais. Ao analisar a «grande imprensa» —personalizada nos jornais Jornal do Brasil (JB), O Globo (OG), a Folha de S. Paulo (FSP) e O Estado de S. Paulo (OESP)—, Fonseca (2003: 75) defende o ponto de vista de que a imprensa brasileira tradicional é conservadora, fato «expresso por sua baixa propensão ou mesmo reação à introdução de novos direitos, com vistas à manu­ten­ção de seu status quo».

Se o contexto de análise do autor trata do período de redemocratização e de elaboração da Constituição Brasileira de 1988, na atualidade a relação com a religiosidade ainda parece servir como base para a recusa de iniciativas progressistas, aliada a ideias que defendem a liberdade do empresariado, sua maior autonomia e liberdade para inovação, e que criticam os altos níveis de impostos que incidem sobre as empresas. Esses aspectos, bem como a exaltação de uma sociedade capitalista e o entendimento desta como a única capaz de oferecer ambiente aberto ao desenvolvimento socioeconômico, são alguns dos exemplos que estão presentes no objeto analisado nesta pesquisa e que serão discutidos adiante.

O próximo tópico traz mais informações sobre o contexto atual da Gazeta do Povo, seu processo de migração para o ambiente digital e seu posicionamento ideológico e político a partir do encarte «Nossas Convicções», ancorado a uma breve contextualização sobre o momento de reinvenção vivido pelo jornalismo brasileiro em tempos de migração para o contexto digital.

2. Gazeta do Povo: desafios e posicionamento editorial

Fundada em 1919, a Gazeta do Povo é o principal veículo jornalístico do estado do Paraná, no sul do Brasil. Tradicionalmente um jornal impresso, ao longo dos anos 2000 e 2010 passou, aos poucos, a priorizar as plataformas digitais, até que a estratégia chegou ao seu ápice em 2017, com o fim da versão em papel. O noticiário se tornou semanal, com edição impressa apenas aos finais de semana, e manteve a publicação dos demais conteúdos somente em seu site.

A mudança trouxe uma guinada no modelo de negócio da empresa de comunicação, que busca encontrar modelos de negócio sustentáveis, lucrativos e que atendam ao público do jornal, frente às recentes transformações sociais, culturais, políticas e da própria lógica de consumo da informação em tempos de internet.

Essa procura por soluções de sobrevivência das mídias tradicionais não é uma exclusividade da Gazeta do Povo. Segundo Albuquerque (2010), períodos de transição do jornalismo em geral promovem uma revisão nas lógicas de produção e distribuição e, no Brasil, assim como nos Estados Unidos, muitos dos veículos vivenciaram um processo de «modernização autoritária» (albuquerque, 2010: 102), no sentido de que a imprensa nacional passa a adotar técnicas advindas de outros países e que visam aprimorar o trabalho que é feito, passando desde a atualização profissional dos jornalistas até o tipo de tecnologia utilizada na rotina de produção, edição e distribuição da informação.

As reformas jornalísticas orientadas pela perspectiva da modernização autoritária se baseiam na percepção de que o jornalismo que se pratica em um determinado país (ou região) sofre de uma severa defasagem em relação ao que se pratica em outros países ou regiões, e propõe uma abordagem do tipo «revolução vinda de cima» para dar conta do problema (Albuquerque, 2010: 105).

Esse movimento se intensificou desde que as redes sociais online ganharam espaço enquanto plataformas de compartilhamento de notícias, ampliando a migração dos jornais para as plataformas digitais e influenciando a forma de publicação do conteúdo e organização das informações. O lide ou a organização do texto no formato de pirâmide invertida conquistou mais força, e recursos como o título e a chamada passaram a ser, ainda mais, a grande tônica dos materiais publicados.

A necessidade de enfrentar a concorrência de outros meios de comunicação e dos demais veículos de informação é o que sustenta a lógica do que alguns autores chamam de «populismo midiático», segundo o qual é preciso apostar na abordagem mais atrativa, que desperte a curiosidade e se aproxime do absurdo, de forma a garantir o clique na notícia. Essa corrente segue uma definição que

remete a uma orientação fortemente dirigida ao mercado e em associa­ção com o «infoentretenimento» nas coberturas jornalísticas. De modo a tornar as notícias mais palatáveis (e, na era das redes digitais, propagáveis), a opção preferencial é por torná-las mais simplificadas e personalizadas. Se a situação é exótica, inesperada (um valor-notícia clássico), melhor ainda (Romancini, 2018: 101, 102).

As maneiras como principalmente os grandes jornalões brasileiros lidaram com estas mudanças vão de um extremo ao outro. Enquanto exemplos como a Folha de S. Paulo optaram por abandonar algumas redes sociais online —no caso, o Facebook—, outros passaram a orientar suas atividades tendo em vista uma abordagem por meio da qual pudessem obter melhores índices de compartilhamento justamente nesses espaços, como é o caso da própria Gazeta do Povo.

Assim, o novo momento do jornal em questão afetou também a forma como se relaciona com seu público, gerando reações entre os consumidores. Ao analisar as «Cartas ao Leitor» no período que chamam de «desmaterialização» da Gazeta do Povo, Lima, Fernandes e Dalla Costa (2018: 16) identificaram as principais reações do público ao processo de transição do jornal da versão impressa para o universo digital, relacionadas às rotinas, ao pacto de leitura, à vida digital, à memória e ao futuro do jornalismo.

Pela análise de comunicações enviadas ao corpo editorial, os autores perceberam que a interrupção da circulação impressa trouxe impactos nos cotidianos dos leitores e na forma como acessam a informação.

os leitores manifestam, sobretudo, que a leitura exclusiva online lhes parece um fardo, pois passam a maior parte do dia, no trabalho, na frente de um computador. Ao mesmo tempo, expressam descontentamento com o fim de uma rotina —o ritual de receber o jornal diariamente. Para eles, ser assinante sem receber o produto físico, é como não ser assinante —o que, nas entrelinhas, invoca uma memória de consumo específica. (Lima; Fernandes; Dalla Costa, 2018: 18).

Assim como foi, por décadas, o jornal impresso com maior tiragem do estado, ao migrar para a internet, a Gazeta do Povo levou consigo parte considerável do seu público, mesmo com a resistência inicial à mudança. Manteve, dessa forma, seu destaque enquanto veículo de comunicação de grande importância para o Paraná, mas alçando voos mais altos e entrando na disputa de audiência entre os grandes portais nacionais.

Em 2018, durante a cobertura das eleições presidenciais, obteve seu pico de audiência, tornando-se temporariamente o site jornalístico mais lido do país, com 33,7 milhões de visitantes únicos no mês de outubro. Em setembro do mesmo ano, a média de acessos foi de 16 milhões de usuários únicos [6]. Dado seu impacto quantitativo de público e por conta sua tradição como veículo de informação regional, a Gazeta do Povo assume um relevante papel de formador de opinião local, estadual e nacional.

Tendo em vista a estratégia de crescimento pautada no âmbito digital, bem como sua linha editorial que já era sabidamente mais voltada ao tradicionalismo do que ao progressismo, é natural que o veículo de comunicação tenha priorizado como seu público os grupos mais conservadores, que têm crescido no país: o percentual de pessoas que se consideram conservadoras foi de 49%, em 2010, a 55%, em 2018, segundo levantamento do Ibope [7].

Assim, o site apresenta, especialmente na última década, uma evidente tendência a defender pautas de caráter menos progressista, especialmente no que diz respeito a questões como os direitos reprodutivos das mulheres, as liberdades sexuais e a identidade de gênero.

Ao analisar as disputas discursivas na cobertura do jornal sobre ques­tões de gênero e diversidade sexual, Souza, Souza e Drummond (2018) evidenciaram que, nos conteúdos voltados aos planos de educação, a Gazeta do Povo cunha sua postura sobre tais assuntos em aspectos conservadores e opostos ao ideal do «politicamente correto», dando destaque aos textos opinativos contrários à presença das questões LGBTI+.

Outra iniciativa empreendida pela Gazeta do Povo e que foi amplamente discutida social e academicamente foi o chamado Monitor de Doutrinação, ferramenta lançada pelo jornal no final de 2017, que convidava a população a denunciar casos de suposta «doutrinação ideológica» nas escolas. O monitor, segundo Romancini (2018: 101), é alinhado com as demais frentes de atuação do jornal, em «uma estratégia de ocupação de mercado, a partir de um segmento conservador». Embora tenha passado poucos dias no ar e tenha recebido inúmeras críticas, a plataforma é mais um indicativo da guinada conservadora do jornal que, meses antes, tornou explícito seu posicionamento.

Em abril de 2017, em pleno período de migração para o digital, a Gazeta do Povo publicou o encarte nomeado «Nossas Convicções», no qual deixa claros os princípios que norteiam o trabalho do jornal, que o define como «um conjunto de textos que explicitam de uma maneira um pouco mais sistemática nossa visão de mundo, que é nosso DNA imutável» [8]. Embora o posicionamento do jornal a respeito de alguns dos assuntos abordados encarte já estivesse claro a leitores mais atentos, a publicação desse novo material tornou-o público.

No texto introdutório no livreto, o veículo de comunicação aponta ao leitor quais serão os temas abordados no encarte e sobre os quais considera importante posicionar-se (tabela 1).

Tabela 1. Artigos do Caderno «Nossas Convicções»

Título do artigo

  1. Opoder da razão e do diálogo

  2. A dignidade da pessoa humana

  3. O alcance da noção de dignidade da pessoa humana

  4. Defesa da vida desde a concepção

  5. Ética e a vocação para a excelência

  6. O valor da família

  7. A importância do casamento

  8. A valorização da mulher

  9. A finalidade da sociedade e o bem comum

10. O princípio da subsidiariedade: menos Estado e mais cidadão

11. Os responsáveis pelo bem comum

12. As empresas, sua finalidade e o bem comum

13. O valor da comunicação

14. O valor da democracia

15. O Estado de Direito

16. Cultura democrática

17. A finalidade do Estado e do governo

18. Os limites da ação do Estado

19. O que é o princípio da proporcionalidade

20. Proporcionalidade e liberdade profissional

21. O Estado laico

22. Liberdade de expressão

23. A legislação sobre o casamento

24. Livre iniciativa

25. Ações afirmativas

26. Fortalecimento do modelo federativo

27. O significado da representação política

28. Voto distrital misto

Fonte: Elaborado a partir do texto «Por quê apresentar nossas convicções?»

As crenças editoriais apresentadas no encarte não se restringiram aos textos seminais ali introduzidos, mas marcaram a reorganização das editorias do jornal, e passaram a nortear o posicionamento do mesmo na rotina de produção. Ao analisar a interferência das convicções da Gazeta do Povo sobre a prática profissional dos jornalistas, Tavares (2019) nota que o novo modelo do jornal, mais voltado à comunicação online e à nacionalização das pautas, bem como a clareza das opiniões editoriais evidenciam a atuação do jornal como agente político.

Após realizar entrevistas em profundidade com profissionais de jornalismo ligados ao periódico, a pesquisadora observa que, para além da lógica econômica pautada na busca por uma maior audiência, «as convicções da Gazeta do Povo, anunciadas junto à apresentação do novo projeto editorial, passaram a orientar fortemente a produção» (Tavares, 2019: 9).

Embora os jornalistas tenham opiniões diversas e, em muitos casos, divergentes sobre como o ato de expressar as convicções do jornal afeta a rela­ção com o público, essas diretrizes servem, segundo a autora, para tornar evidentes os posicionamentos e fazer uma espécie de função de filtro que, em muitos casos, limitam a atividade jornalística, entrando em desacordo com os próprios profissionais que produzem a notícia.

Tendo em vista esses conflitos, o tópico a seguir descreve de que forma os elementos característicos foram utilizados como categorias ou variáveis de análise dos textos do encarte publicado em 2017, passando-se, depois, aos resultados da análise dos materiais já descritos.

3. Métodos e técnicas empregados

Para identificar quais dos elementos característicos do pensamento conservador estão presentes no material que configura o objeto deste artigo, a opção metodológica selecionada foi a da Análise de Conteúdo, seguida por uma análise léxica. A primeira, «em sua vertente qualitativa, parte de uma série de pressupostos, os quais, no exame de um texto, servem de suporte para captar seu sentido simbólico. Esse sentido nem sempre é manifesto e o seu significado não é único» (Moraes, 1999: 2).

Moraes (1999: 4) recomenda a fundamentação desse tipo de análise em cinco etapas: Preparação das informações; Unitarização ou transformação do conteúdo em unidades; Categorização ou classificação das unidades em categorias; Descrição; Interpretação. Foram esses os passos que orientaram a primeira etapa analítica deste artigo.

Tendo os artigos do encarte como unidades de análise, observou-se como cada uma apresentava as características que marcam o pensamento conservador contemporâneo, a partir do pensamento de Mannheim, respondendo às seguintes questões:

1.    Há menção a alguma religião?   

2.    Há menção ao chamado «politicamente correto»? (por exemplo, movimentos feministas, LGBTI+, direitos humanos, cotas em universidades, entre outros)

3.    Há posicionamento em relação ao aborto?         

4.    Há posicionamento em relação à igualdade de gênero?

5.    Há defesa da chamada «família tradicional»?

Além da categorização a partir das variáveis ligadas ao conservadorismo, também foi utilizado o software de análise léxica Iramuteq, que permite identificar, dentro do texto, os clusters de palavras e onde estão as principais conexões e relações entre elas. Ao combinar essas duas etapas de análise, foi possível cruzar os clusters de palavras com os aspectos relacionados ao conservadorismo, para responder à pergunta proposta.

4. Conservadorismo convicto

Todas as cinco questões levantadas anteriormente aparecem de uma forma ou outra nos textos analisados. O uso da religião como argumento ou justificativa do posicionamento está em cinco artigos do encarte. Foram levados em consideração apenas aqueles em que a religião é um ponto central na argumenta­ção, quando destaca-se o valor histórico ou defende-se a manutenção dos princípios religiosos em assuntos que dizem respeito a tópicos sociais.

Por exemplo, o trecho selecionado a seguir, extraído do texto «A dignidade da pessoa humana»:

Para toda a tradição judaico-cristã, a raiz desse especial valor é o fato de ser imagem e semelhança de Deus —e é sintomático que o cristianismo tenha tido um impacto tão grande nas sociedades pagãs ao afirmar a universalidade da dignidade humana entre pessoas que viam, por exemplo, as mulheres como objeto. Na época das Grandes Navegações, o debate sobre a dignidade dos habitantes das novas terras descobertas resolveu-se afirmativamente graças ao trabalho de pensadores como o espanhol Francisco de Vitória [9].

A relação com a crença religiosa é um aspecto importante de ser notado ao olhar para os materiais publicados pela Gazeta do Povo. A fé cristã é uma característica que permeia a rotina e a comunicação do jornal, já que a família Cunha Pereira, fundadora e mantenedora do mesmo, é formada por católicos praticantes [10].

Outros dois critérios aparecem também com destaque. Diretamente ligado às condições que criam, de acordo com Mannheim, um ambiente ideal ao surgimento do pensamento conservador de maneira organizada, está a mudança social gerada pelo debate crescente em torno de determinados tipos de movimentos sociais e minorias.

A defesa da equidade de gênero e dos direitos de negros, imigrantes, pessoas do grupo LGBTI+, bem como defensores dos Direitos Humanos e das cotas para minorias em universidades, todos esses elementos foram compilados na pergunta: «Há menção ao chamado «politicamente correto»? Ao menos um dentre os aspectos mencionados acima é mencionado nos textos «O poder da razão e do diálogo», «A valorização da mulher», «Liberdade de expressão», «A legislação sobre o casamento», «Ações afirmativas», «Voto distrital misto», ou seja, em seis dos textos.

Chama a atenção especialmente a terminologia utilizada para referir-se a pessoas e ideias como as citadas neste critério, como a expressão «opressão do politicamente correto», citada abaixo.

Se a disposição ao debate estiver de mãos dadas com o respeito à autonomia do outro (...) e com a disposição de retificar quando se percebe o erro, será possível evitar diversas armadilhas derivadas do voluntarismo relativista, como a intolerância contra as ideias que não estejam na moda —em outras palavras, a opressão do politicamente correto [11].

Outro termo citado é a expressão «mainstream feminista», sem, no entanto, um aprofundamento ou esclarecimento do seu significado. No trecho destacado a seguir, o jornal sugere que este grupo domina o discurso dos movimentos das mulheres, fazendo o que chama de «colonização ideológica», ou seja, uma espécie de tentativa de dominação das discussões políticas sobre os direitos das mulheres.

(...) uma progressiva instrumentalização dos ideais feministas ao longo das últimas décadas minou as suas forças, concentrando-as em pautas que o contradizem —como o desprezo pela maternidade e a afirmação de um suposto «direito» ao aborto. Assim, o mainstream feminista se tornou mais um agente de uma colonização ideológica que está longe de representar uma real preocupação pela valorização da mulher [12].

Retornando aos elementos que marcam o pensamento conservador discutidos anteriormente, os trechos destacados acima podem ser compreendidos como reações a movimentos progressistas pelos direitos das mulheres —a insistência em combater a intolerância do politicamente correto como uma forma de reagir ou defender-se dos grupos que buscam seus direitos.

Igualmente presente está a argumentação em defesa da «família tradicional», aqui caracterizada como aquela composta por um casal heterossexual, onde homem e mulher assumem os papeis de pai e mãe. O discurso da Gazeta do Povo no encarte «Nossas Convicções» é enfático no que tange à defesa da composição familiar convencional, trazendo esse tema inclusive no título de alguns dos textos.

Essa defesa acontece em «O alcance da noção de dignidade da pessoa humana», «O valor da família», «A importância do casamento», «A valorização da mulher», «Os responsáveis pelo bem comum» e «A legislação sobre o casamento», sendo o segundo e o terceiro os mais dedicados a tratar do tema.

As abordagens a esse ponto variam desde a defesa de casais heterossexuais até a crítica enfática ao que o autor dos textos —cuja identidade não aparece explícita— chama de «mentalidade antinatalista», tema recorrente nos textos desta categoria e também na que será tratada a seguir, na temática «Há manifestação contrária ao aborto?».

São quatro os textos que tratam desse assunto: «O alcance da noção de dignidade da pessoa humana», «Defesa da vida desde a concepção», «O valor da família», «A valorização da mulher».

A preocupação com «a vida desde a concepção» é pungente nos textos, conforme o trecho citado acima quando mencionada a referência ao «main­stream feminista» e também como no exemplo a seguir, extraído do texto «O valor da família»:

Infelizmente, difundiu-se uma mentalidade antinatalista que vê os filhos principalmente como fonte de gasto financeiro e de desgaste físico e emocional. É preciso resgatar urgentemente a convicção de que os filhos são valiosos pelo que são [13].

Todos os trechos citados acima reforçam elementos condizentes com as características mencionadas quando apresentados os principais referenciais sobre o pensamento conservador.

Além das temáticas discutidas, outro ponto identificado é a entonação do discurso, que frequentemente se posicionava em oposição a algo —a exemplo do mencionado acima. Referências como essa mais uma vez ilustram o que Mannheim destaca sobre a resistência a formas inovadoras de pensamento e a tentativa de manter as tradições ainda que já não mais se adequem às condi­ções atuais.

O conservador somente pensa em termos do sistema como uma reação, quando é forçado a desenvolver um sistema próprio para contrapor ao dos progressistas ou quando a marcha dos acontecimentos o priva de qualquer influência sobre o presente imediato, de tal forma que ele seria obrigado a girar a roda da história para trás a fim de reconquistar sua influência (Mannheim, 1986: 112).

É importante destacar, no entanto, alguns fatores que se apresentam no caminho contrário. Enquanto o tom do discurso e as argumentações discutidas na maior parte dos textos revele um posicionamento conservador, o jornal defende, ainda que com ressalvas, alguns dos indivíduos mencionados. Em dois dos textos, o autor se manifesta a favor da igualdade de gênero, enquanto critica as políticas de desvalorização da mulher dentro de ambientes profissionais. São eles: «A dignidade da pessoa humana» e «A valorização da mulher».

Ao fazê-lo, no entanto, se utiliza de argumentos que, ainda assim, des­toam daqueles utilizados pelos movimentos feministas. Como se, ainda que defenda, por exemplo, o acesso da mulher a cargos de liderança e seu direito ao voto, e que admita que ambos são conquistas do movimento feminista, algo o impedisse de concordar com a configuração atual do movimento, como exemplificado no trecho citado anteriormente, que cita o feminismo como agente de «colonização ideológica».

Raciocínio semelhante parece nortear a discussão em torno das ques­tões LGBTI+. No texto «Liberdade de expressão», o jornal defende o direito a apresentar ressalvas contra a homossexualidade, quando critica a pauta da criminalização da homofobia.

Pense-se, por exemplo, em algumas das dimensões do que se vem chamando de «homofobia». Embora seja razoável e necessário tipificar mais exatamente a injúria em razão das opções sexuais, bem como os casos de preconceito ou discriminação, não se pode de maneira nenhuma criminalizar a opinião contrária ao comportamento homossexual [14].

Embora defenda-se reforçando é «necessário tipificar a injúria em razão das opções sexuais», o jornal de certa forma parece defender o direito à homofobia. A presença de certos tipos de preconceito, ainda que nem sempre seja reconhecida pelos seus praticantes como tal, também marca o pensamento conservador moderno, conforma aponta Souza (2015: 16):

O conservadorismo moderno valoriza os «preconceitos». Para essa corrente, os «preconceitos» são tomados como sistema de valores acumulados.  Longe do sentido comum que os debates cotidianos fornecem ao termo «preconceito», geralmente associado a algum tipo de discriminação, no entender do conservadorismo, eles são balizas seguras para a orientação da ação social (e política) racional porque representam o conjunto de saberes adquiridos com o passar do tempo. Constituem, igualmente, o arco de ação das reformas sociais possíveis. Reformas que aprimorem, preservando, a tradição, já devidamente testada e experimentada empiricamente.

A resistência às reformas sociais passa por uma repulsa a programas de assistencialismo social e à crítica a medidas consideradas pelos portadores do conservadorismo como exageradamente defensoras do trabalhador —de forma que onerariam os empregadores, o que impede o progresso econômico e o lucro.

Esse ponto também está presente nos textos analisados, reforçando o que diz Souza quando sugere que o conservadorismo moderno superou as ressalvas que o conservadorismo clássico tinha com o capitalismo e a sociedade burguesa nos séculos XIX e início do XX.

A reconciliação do conservadorismo com o liberalismo completou-se na incorporação da ideia de que o lucro é a mediação fundamental do desenvolvimento, individual e coletivo. Daí em diante, o mercado livre passa a ser visto como portador e fundador das possibilidades de explicita­ção das capacidades humanas (Souza, 2005: 16).

A preocupação com o presente e com o impacto imediato de determinadas medidas e movimentos aparece ao dizer que «Quando a visão predominante em uma sociedade é aquela marcada pelo espírito da luta de classes socialista, o espírito inovador murcha» [15], e reforçar, no mesmo texto, que

A salvaguarda de várias garantias fundamentais necessárias para a dignidade do trabalhador, como o descanso semanal, acabou engolida por uma série de reivindicações e encargos que, sob o argumento de garantir mais direitos aos funcionários, terminaram onerando excessivamente as empresas e dificultando inclusive a absorção de mais pessoas ao quadro funcional. Esse tipo de exagero leva a uma reação contrária, que empurra trabalhadores para a informalidade, com todas as suas consequências, que incluem a diminuição da rede de proteção governamental a essas pessoas.

Em tempos nos quais o país passa por um desmonte dos direitos trabalhistas, com uma reforma da previdência e outra da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com incentivo à terceirização de trabalhadores que pende a uma precarização das condições de trabalho e redução de benefícios, um veículo de comunicação de impacto como a Gazeta do Povo tratar as garantias constitucionais do trabalhador como «exageros» é sintomático de um conservadorismo presente nas mais diversas esferas.

Outro ponto que vale ser mencionado é a utilização de pensadores das mais diversas vertentes e áreas do conhecimento para sustentar a argumentação do autor. Em 16 dos 28 textos, a Gazeta do Povo reforça suas convicções utilizando-se de nomes como Jürgen Habermas, Winston Churchill, Aristóteles, entre outros.

As citações são usadas na maior parte como introdução do assunto, bem como no corpo do texto para dar força ao ponto que quer ser destacado pelo autor. É importante também considerar que, enquanto as ideias conservadoras são defendidas com essa fundamentação teórica, o jornal não utiliza o mesmo recurso ao ponderar o outro lado da questão —quando, por exemplo, critica o feminismo e o movimento LGBTI+, não oferece embasamento teórico consistente e, recorrentemente nos textos, as ideias apresentadas como sendo desses movimentos são pautadas no senso comum, não refletindo exatamente a visão geral do movimento.

A diferenciação no trato de algumas ideias em detrimento de outras reforça o caráter opinativo dos textos, algo que é evidenciado pelo jornal na própria finalidade do caderno —a de expor ao público o posicionamento e opinião do jornal enquanto veículo de comunicação. Esse esclarecimento, no entanto, não os isenta de responsabilidade frente a assuntos delicados e que se refletem sobre a segurança e a vida de tantas pessoas.

4.1. A forma da convicção

Quando procedemos para a análise léxica do conteúdo textual dos artigos de «Nossas Convicções», o mesmo aparece dividido em cinco clusters, ou famílias de palavras, que indicam quais são as principais relações de termos que aparecem no conteúdo em questão (gráfico 1).

Gráfico 1. Análise Fatorial de Correspondência

Fonte: a autora, 2019

O gráfico 1, da Análise Fatorial de Correspondência, apresenta uma espécie de nuvem de palavras que é resultado do cruzamento do vocabulário com essas classes, a partir da frequência com que cada termo aparece no texto (Nascimento; Menandro, 2006). As palavras em fontes de tamanhos maiores são as mais recorrentes, enquanto que as menores figuram com menos frequência, mas todas elas aparecem pelo menos 10 vezes no conjunto de textos.

Algumas classes de palavras não se mesclam tão evidentemente a outras, mas nenhum dos grupos de palavras aparece completamente isolado dos demais e alguns termos se misturam. Isso pode ser interpretado como uma espécie de homogeneidade no conteúdo, indicando que nenhum dos textos destoa completamente dos demais, com um léxico que é recorrente no material.

O cluster dedicado a questões mais institucionais (em vermelho) —que tratam de fatores profissionais, empresas e valorização do trabalho— é o que mais se distancia dos demais. Com destaque a termos como «realização», «profissional», «empresa» e «bem comum» o conteúdo atrela características individuais às coletivas, demonstrando uma tentativa de relacionar o comportamento pessoal às responsabilidades sociais, políticas e/ou públicas dos mesmos.

Apesar de ser o mais distante dos demais, alguns termos do cluster em vermelho se aproximam de outra classe também institucional (em verde), porém em um nível mais abrangente e focado na instituição estatal, que trata de questões voltadas a instâncias superiores e governamentais. Entre os dois, o termo «bem comum» parece ser a intersecção.

Os termos «família» e «indivíduo» também aparecem mais associados ao Estado do que às questões de dignidade humana, indicando que uma parcela importante do conteúdo do encarte «Nossas Convicções» está dedicada a um olhar empreendedor, institucional e corporativo, mas que, mesmo quando se trata desses assuntos, o autor ou autores dos textos relaciona essas pautas às questões do indivíduo.

É nos outros três clusters, no entanto, que aparecem com maior evidência os cinco elementos adaptados de Mannheim para identificar uma tendência ao conservadorismo —menção à religião, ao politicamente correto, posicionamento em relação ao aborto, à igualdade de gênero e a defesa da família tradicional. Próxima ao cluster verde e o mais forte entre todos os cinco, com 24,7% das ocorrências, está a classe de palavras que tem na religião seu aspecto central (em cinza).

Note-se que, confirmando o que apontou a análise de conteúdo empreendida na primeira etapa do artigo, a religião tangencia a discussão sobre o Estado, aproximando a política da fé, um dos sinais do conservadorismo. No caso da Alemanha analisada por Mannheim no começo do século passado, era em torno da política, não da religião, que as diferenças se cristalizavam. No Brasil do século XXI, religião e política parecem caminhar juntas, de maneira complementar, para consolidar alguns aspectos antiprogressistas, o que se confirma na análise da Gazeta do Povo.

Esse resultado também dialoga com o que sugere Almeida (2017) ao discutir a «onda quebrada» do conservadorismo. O autor entende que houve uma institucionalização da religião na política com a forte entrada de líderes religiosos no parlamento, a partir principalmente dos anos 1980, com a formação da chamada «bancada evangélica», composta por figuras religiosas eleitas para cargos públicos. Nesse contexto, «com força política, econômica e demográfica, as pautas de ordem moral têm sido canalizadas de forma mais contundente no Poder Legislativo» (Almeida, 2017: 17). A presença desses representantes das diferentes igrejas no poder público ajuda a explicar também a relação forte entre religião e Estado no material analisado, uma vez que a migração para as instâncias representativas ajudou a reposicionar, como pautas da esfera pública, alguns tópicos que até então poderiam ser encarados como da ordem da vida privada.

Além da questão religiosa, é nos dois clusters que aparecem no gráfico em azul e lilás que estão as principais aproximações. As palavras que compõem o grupo em que predominam as discussões sobre racionalidade —filosofia e manifestação do pensamento, razão e convicção— se entrecruzam o tempo todo com o cluster daquelas voltadas a discutir a dignidade humana e a moral. Esse aspecto vai ao encontro de outra característica importante do conservadorismo apontada por Souza (2015: 11). «Para os conservadores, o racionalismo é uma subversão da razão, na medida em que pretende construir uma sociabilidade segundo princípios de evolução que conduziriam à “perfeição”, por intermédio da ideia-força das “possibilidades infinitas”».

Vale notar ainda que os termos ligados à razão estão organizados em torno da palavra «homem», enquanto que o termo «mulher» sequer aparece nas ocorrências identificadas como em quantidade relevante.

Em azul no gráfico, a questão do aborto aparece deveras deslocada dos demais termos do mesmo cluster, mas mesclada ao cluster lilás, que circula em torno das questões relacionadas à dignidade do homem e à moralidade, enquanto a palavra «concepção» está deslocada, junto ao cluster cinza. Disso, depreende-se que, quando trata de reforçar que considera que há vida desde a concepção, o jornal atrela seu posicionamento à questão da religião. Por outro lado, quando se posiciona contra o aborto diretamente, fundamenta seus pontos na defesa da dignidade humana e em argumentos ontológicos. Em nenhum momento, a questão do aborto é colocada como uma questão de saúde pública, um direito ou garantia que deve ser fornecido pelo Estado.

A preocupação com a igualdade de gênero, único aspecto que a primeira etapa desta análise evidenciou ser um ponto no qual o encarte ensaia um pensamento mais progressista, não demonstra presença significativa na etapa de análise léxica. Termos como «gênero», «igualdade», «paridade» e similares não figuram entre os mais recorrentes do texto.

Como já mencionado acima, o termo «família» é central no conjunto de textos analisados, aparecendo ao centro do gráfico, e, portanto, relacionado a todos os clusters. Ainda assim, o fato de aparecer em verde, onde estão também vocábulos atrelados à institucionalização das atividades, indica uma construção argumentativa na qual o cuidado com a família e o bem comum são de responsabilidade do Estado. Ou seja, o direito ao aborto e a igualdade de gênero não são dever do Estado, mas a atenção à família, enquanto pilar da sociedade, sim.

À exceção do cluster em torno da religião, os demais apresentam pesos similares na composição do gráfico: tanto as classes de palavras que focam nas atividades profissionais e institucionais, quando as voltadas à moralidade e racionalidade humanas.

Nesse sentido, o conteúdo dos materiais analisados neste artigo —textos opinativos e assinados pela própria Gazeta do Povo, sem autoria atribuída a um jornalista ou editor do veículo— vai de encontro ao que Souza reforça ao tratar de uma identidade mista e não homogênea, quando se trata de compreender o conservadorismo moderno.

O conservadorismo de nosso tempo pretende, portanto, ser um terceiro termo entre as propostas revolucionárias e as revanches reacionárias. Nem sempre é possível estabelecer uma identidade teórica e política entre conservadores, para os quais é caro o princípio da prudência na política, e reacionários. Esse é um elo importante que abre passagem para que os conservadores atuais apareçam como progressistas. Afirmando diretamente: quando o antagonista político é reacionário, um conservador pode aparecer como elemento de avanço, porque valoriza o dado imediato instituído, em desfavor de mudanças potencialmente regressivas. No entanto, essa aparência demanda a crítica e a desmistificação dos setores comprometidos com a emancipação humana (Souza, 2005, p. 8).

A resistência a ideias essencialmente liberais e o reforço à importância de se manter tradições e estruturas já consolidadas da sociedade —como a família tradicional e a liberdade de atuação dos empreendedores— são alguns exemplos que marcam o posicionamento conservador do jornal.

Assim, confirmando a hipótese da qual partia-se ao iniciar a análise do encarte «Nossas Convicções», é possível afirmar que os elementos que caracterizam o conservadorismo em Mannheim também podem ser encontrados no material em questão, ainda que apresentem algumas particularidades que os diferenciam do contexto analisado pelo autor alemão —a relação de religião e política, por exemplo, aqui é mais evidente e explícita.

A principal característica que parece permear tanto a discussão teórica do autor alemão quanto os desdobramentos do conservadorismo no Brasil, a partir da análise dos textos observados neste artigo, parece ser o aspecto reacionário do mesmo, que representa uma espécie de resposta aos avanços progressistas vislumbrados em diversas esferas, daí o papel importante assumido pela religião como base para parte da argumentação.

5. Considerações finais

Ao identificar quais são as principais características do pensamento conservador, discutindo-as pela ótica de Mannheim, e ao realizar uma busca da presença desses aspectos nos textos que compõem o encarte «Nossas Con­vic­ções», da Gazeta do Povo, este artigo buscou analisar a presença de uma tendência conservadora expressa no posicionamento editorial do jornal apresentado em abril de 2017.

Por meio da leitura direcionada dos 28 textos que fazem parte do material e de uma análise de conteúdo pautada nas categorias sugeridas por Mo­raes e adaptadas dos elementos do conservadorismo elencados por Mannheim, foi possível identificar a presença consistente de um argumento pautado na defesa da chamada «família tradicional», calcada na heterossexualidade, bem como uma crítica recorrente a pensamentos preocupados com direitos humanos e ao que o jornal chama de «politicamente correto», bem como a crítica repetida a certas correntes dos movimentos feminista e LGBTI+.

Ao observar as classes de palavras, a análise léxica do conteúdo demonstrou que, no material observado, o jornal associa fortemente a religião e os aspectos familiares e individuais a questões de Estado, mais até do que às pautas de dignidade humana e racionalidade. As menções ao valor histórico da religião e as críticas duras ao que o jornal chama de «mentalidade antinatalista» também são recorrentes, e o termo «aborto» aparece relacionado à racionalidade, não tanto à religião nem a políticas públicas.

Ao menos quatro das cinco categorias que indicam importantes pilares do conservadorismo estão de fato presentes no discurso: posicionamento calcado na religião, crítica ao politicamente correto, combate ao aborto e defesa da família tradicional. Apenas a questão da igualdade de gênero recebe uma ponderação.

O que se percebe, portanto, é a necessidade do jornal de, em um delicado momento político e social vivido pelo Brasil na atualidade, deixar claro seu posicionamento conservador. Certamente a discussão não se esgota neste artigo, ficando abertas diversas questões que podem, mais à frente, serem trabalhadas. A relação da imprensa brasileira com a religião e as manifesta­ções do conservadorismo no contexto político atual, por exemplo, é um aspecto que poderá ser melhor desdobrado em trabalhos futuros.

Merece ser mais uma vez discutida, ainda, a fronteira entre textos opinativos e jornalísticos num cenário de desinformação e circulação de informações falsas, bem como a diferença de impacto que causam no público, que pode não identificar a diferença entre ambos. Também é válida uma leitura mais detalhada observando a reação dos leitores a este material, bem como uma expansão do corpus de análise para incluir textos jornalísticos ou opinativos de outra ordem, como as colunas, por exemplo.

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[1] Segundo dados de audiência divulgados pelo próprio veículo, a Gazeta do Povo teve 17,3 mil­hões de visitantes únicos e 58 milhões de páginas vistas mensalmente. Fonte: https://www.gazetadopovojornais.com.br.

[2] Disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/nossas-conviccoes/. Acesso em 18/10/2019.

[3] Segundo o relatório de Desigualdades por Raça e Cor, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população preta ou parda ocupa, em 2019, 50,3% das vagas em universidades públicas brasileiras: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101681infor­mati­vo.pdf. Acesso em 13/12/2019.

[4] Fonte: Jornal El País Brasil. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/21/poli-tica/1490112229_963711.html. Acesso em 26/08/2017.

[7] Fonte: Revista Piauí: https://piaui.folha.uol.com.br/grafico-conservadorismo/. Acesso em 29/02/2020.

[9] Disponível em: https://bit.ly/33K594G. Acesso em: 18/10/2019.

[10] Em entrevista por ocasião dos 100 anos do jornal, comemorados em 2019, menciona-se a filiação de um dos publishers e atual diretor do jornal, Guilherme Cunha Pereira, à instituição católica Opus Dei. Fonte: https://especiais.gazetadopovo.com.br/100-anos/ana-amelia-guilherme-cunha-pereira-perfil/.

[11] Disponível em: https://bit.ly/31wQckF. Acesso em: 18/10/2019.

[12] Disponível em: https://bit.ly/33GsjJ5. Acesso em: 18/10/2019.

[13] Disponível em: https://bit.ly/32oZhxn. Acesso em 18/10/2019.

[15] Disponível em: https://bit.ly/2MXBsX7. Acesso em 18/10/2019.

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